quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Numa altura em que tudo parece desmoronar à minha volta, sinto-me na obrigação de aqui voltar.
Quando entrei para medicina, ou quando escolhi que esta seria a minha profissão para sempre, estava longe de saber que iria sentir o que sinto neste momento.
No meio daquilo que vai sendo a vivência hospitalar, estou cada vez mais desiludida com a vida que escolhi. O hospital onde trabalho está a desmoronar. E não é aos poucos. Sinto que cada dia que entro e saio (ou não saio), as coisas mudam a um ritmo estonteante. E ao mesmo tempo sinto que está sempre tudo na mesma. Mal.
Ver pessoas mais velhas desiludidas e tristes com o que se está a passar custa. Mas custa-me muito mais quando sou eu que me irrito com essas coisas. Ou pior: fico triste. Não tenho idade para desacreditar em tudo isto, nem de desistir daquilo que
acreditei a vida inteira: que o mundo poderia mudar...
Mais me dói é ver que os doentes são o que menos importa no meio daquilo tudo. Alguém se esqueceu que o hospital foi feito para os doentes? Só assim faz sentido, digo eu.
Sim. Hoje estou deprimida e triste com tudo o que acontece sem que eu consiga interferir. Tenho pena que ninguém lute pelos interesses dos doentes, das pessoas que precisam de nós. Alguma coisa vai ter que mudar. Os sonhos só fazem sentido se continuar a acreditar que um dia os poderei realizar. Acredito que um dia vou conseguir mudar o mundo.
Resta-me, neste momento, agradecer à Associação VoxLisboa por me dar tanto e me ajudar a pelo menos melhorar o mundo de alguém. Só um mundo de amor vale a pena para se viver a vida inteira.